e/ou: eu tenho certeza que o Casemiro é a reencarnação do Olavo Bilac Link to heading
Como já é regra há 20 anos no Brasil, eliminação de Copa do Mundo sempre é momento muito democrático para análise. De jornalistas a leigos, obcecados ou quem só assiste de 4 em 4 anos, todos têm alguma opinião e estão certos de que sabem exatamente o que faltou para sermos hexa. Eu, evidentemente, também sei exatamente o que nos falta, e em vez de guardar minhas convicções apenas para o boteco, esse ano resolvi também escrevê-las.
O problema do futebol brasileiro é artístico. A ótica modernista brasileira, mais de 100 anos depois, continua a explicar com precisão o contínuo fracasso e o não lugar em que se encontra a seleção. Para melhor entender, precisamos voltar a Oswald, Tarsila e Nelson.
A tese antropofágica já é conhecida: comer o que vem de fora e transformar em algo genuinamente brasileiro. “Tupi, or not tupi that is the question”.
Mais tarde, em 50, o Maracanaço. E em 58, logo antes da estreia, Nelson Rodrigues batiza o vira-lata, que tão logo nasce, conquista nosso primeiro mundial, rapidamente percebendo seu próprio lugar no mundo: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”.
Em algum momento das últimas duas décadas, porém, o vira-lata vive uma crise de identidade. Vai embora cada vez mais cedo, e cada vez mais cedo esquece o caminho de volta. Entre as glórias do passado e a desconexão com quem ficou, passa por um processo de antropofagia reversa: quem devora, agora, é o outro. Saem a ginga, a imprevisibilidade e a conexão com o próprio povo; entram a tática quase militar, a força excessiva e os passes tediosos. O Casemiro bebe da mesmíssima água que o Olavo Bilac. Reproduz com (irritante) precisão o modo de jogar europeu e provavelmente vaiaria o poema “Os Sapos” porque Manuel Bandeira não é do grupo.
A solução é, portanto, absolutamente trivial. Assim como os modernistas de 20, precisamos fazer a nossa própria arte. De novo. Não só no futebol. Sem nunca se esquecer o caminho de volta.